Entrevista com Vander Costa

CNT vê necessidade de Reformas e acompanha atentamente as demandas do setor


Finalizando seu terceiro ano como presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa ainda vê a pandemia como o principal empecilho do desenvolvimento do transporte rodoviário de cargas (TRC) e da economia como um todo e acredita que é momento de utilizar ainda mais as entidades de classe e o conhecimento adquirido nos últimos anos para recuperar margem frente às altas dos insumos. “Agora é a hora de aproveitar todo o conhecimento que os empresários obtiveram e de utilizar o departamento técnico da NTC, o DECOPE, que sabe fazer planilha e cálculo de custos como ninguém para recuperar preços e recuperar margem”.


Confira a entrevista completa:


Presidente Vander, no ano passado viemos aqui, o entrevistamos e iniciamos a nossa conversa falando um pouco sobre como foi para você assumir a CNT. Neste ano, para iniciarmos, eu gostaria que o senhor nos falasse quais foram os principais desafios da CNT em 2021.


Resposta: Acredito que não poderia ser diferente do fato de que o principal desafio ainda é a pandemia. É fato que evoluímos muito: o Brasil conseguiu comprar as vacinas, que são muito importantes. Aliás, em minha opinião, a vacinação em massa é a única saída para a pandemia e para que, consequentemente, possamos voltar a fazer negócios, turismo e outras atividades dentro e fora do país.


Foi um grande mérito do governo Jair Bolsonaro ter comprado doses suficientes para toda a população, doses essas que, mesmo com algum atraso, estão chegando e vacinando a população. A partir disso, podemos começar a imaginar um 2022 sem pandemia, ou com ela totalmente controlada. Dessa forma, o principal desafio foi nos mantermos saudáveis em meio a todo esse momento.


A CNT, desde o primeiro momento, com apoio da NTC e das demais associadas, se colocou à disposição do governo federal para a distribuição de vacinas. Nós nunca enxergamos a logística dessas entregas como um problema, porque o Brasil é um país que sabe vacinar em massa. Então o problema nunca foi a logística, como quiseram colocar, e sim a falta de vacinas.


Nesse meio tempo, viemos trabalhando em prol dos interesses do setor de transportes como um todo.


Após um 2020 muito atípico por conta da pandemia, os segmentos de transporte tiveram uma melhora significativa em 2021. Qual balanço o senhor faz desse momento em que vivemos? Já consegue enxergar uma maior normalidade?


Resposta: Eu vejo uma normalidade um tanto quanto diferente. Mas falando sobre o balanço, em um primeiro momento, todos os modais de transporte foram afetados, inclusive de cargas. Houve também uma dificuldade muito grande de interpretação de alguns prefeitos e governadores que até proibiram o transporte, mas isso foi rápido, o modal de cargas se recuperou muito rapidamente e hoje o volume de carga transportado supera o pré-pandemia não só no transporte rodoviário de cargas, mas o aquaviário, ferroviário e portuário também estão em boa recuperação.


No transporte de passageiros, a situação é mais complexa. Já se fala em uma recuperação de 60% a 70%, mas uma queda de 30% ainda é significativa.


Apesar da melhora no cenário econômico, 2021 não deixou de trazer dificuldades para os segmentos de transporte. Quais os principais feitos da CNT para poder contribuir não apenas com o transporte de cargas, mas no segmento de transporte como um todo?


Resposta: O principal feito foi o reconhecimento do transporte como atividade essencial, que era algo buscado há muito tempo e que no início da pandemia conseguimos alcançar. Outra questão foi não permitir que houvesse um aumento de carga tributária, apesar das dificuldades impostas pelo governo por meio do Ministro Paulo Guedes, que vem insistentemente enviando projetos de aumento tributários para o setor de transportes.


Também tivemos êxito e continuamos nessa luta constante para não deixar que a mistura de biodiesel no diesel seja elevada de 10% para 20% sem que haja um acompanhamento técnico específico. Nós, transportadores que já estamos pagando o óleo diesel mais caro da história do Brasil, ainda sofremos com essas tentativas de aumentar a porcentagem de biodiesel, que é oito vezes mais caro que o diesel comum. Então não vemos razoabilidade econômica nesse momento. O biodiesel é fator gerador de inflação, e a CNT, junto com as associadas, tem lutado sempre pautada pela técnica e pela ciência e agora junto com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) e com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) para fazer com que o objetivo do biodiesel seja cumprido, que é reduzir a emissão de poluentes.


Agora nos voltando para o TRC, como o senhor tem visto os transportadores com relação principalmente a essas questões do biodiesel e do diesel?


Resposta: O transportador passa hoje por um momento complexo de aumento de custos, porque o insumo mais importante, que é o diesel, está muito caro, e não tem nenhuma redução de custo para poder compensar esses aumentos. Então, o recado que eu passo é que agora é a hora de aproveitar todo o conhecimento que os empresários obtiveram, de utilizar o departamento técnico da NTC, o DECOPE, que sabe fazer planilha e cálculo de custos como ninguém e de recuperar preços, de recuperar margem. Hoje existem duas alternativas para o transportador: ou ele recupera margem e repassa custo integralmente, ou morre e fecha as portas. Não há como absorver custos se não existe margem, e o transporte de cargas sempre teve um espaço de 2%, 3%. Portanto, será necessário fazer esses movimentos para continuar atuando.


Se a pressão dos embarcadores vier muito grande, é preferível fechar uma empresa saudável do que manter volume de cargas e fechar posteriormente porque quebrou.


Falando agora um pouco do SEST SENAT, que foi muito importante principalmente nesse momento de crise ao oferecer um apoio muito forte às empresas e no cuidado com os motoristas. Gostaria que o senhor nos falasse um pouco sobre esse trabalho e também como o SEST SENAT vem atuando para auxiliar os motoristas na qualificação profissional e no cuidado que a categoria merece.


Resposta: A primeira coisa que não posso deixar de falar é que a nossa maior dificuldade foi escapar das facadas do Paulo Guedes. Até agora me parece que o ministro deixou de atuar na economia para atuar no Ministério do Trabalho. Agora, com o ministro Onix, nós recebemos a afirmação de que vamos atuar em cooperação com o governo para encontrar as melhoras saídas.


Desde o início da pandemia, o SEST SENAT foi para as estradas com campanhas constantes e nas mais diversas ocasiões para levar conhecimento a todos os profissionais do setor de transportes.


Com relação à falta de motoristas, essa é uma verdade no Brasil e no mundo, e nós estamos aqui para qualificar e entregar essa mão de obra para os transportadores. Na gestão anterior, por meio do SEST SENAT, a CNT realizou uma campanha muito grande para realizar a formação de motoristas de categoria B. Agora queremos aproveitar esses motoristas, que em muitos casos estão trabalhando em aplicativos, e os qualificar e capacitar para dirigir os caminhões do transporte rodoviário de cargas e suprir essa falta de motoristas.

Nós também continuamos em cima dos órgãos do governo para que o SEST SENAT também possa ser um centro de formação de condutores (CFC) com o objetivo exclusivo de formar motorista para o TRC de forma gratuita. Confesso que ainda não consegui entender por que o motorista tem que pagar para a autoescola, sendo que estamos aqui para qualificar de forma gratuita e disponibilizar mão de obra para o mercado.


Agora trazendo para a nossa pauta assuntos nacionais, as concessões e privatizações continuam sendo um tema recorrente no governo. Gostaria que o senhor nos falasse um pouco da sua visão de como as privatizações impactam no transporte de uma maneira geral.


Resposta: No transporte rodoviário de forma geral existe uma expectativa muito grande. Particularmente, não posso deixar de dizer que estou um pouco frustrado, porque quando o presidente Bolsonaro e o ministro Tarcísio assumiram e anunciaram que vinham diversas concessões, nós esperávamos que isso aconteceria nos primeiros dois anos. Já estamos indo para o quarto e último ano de mandato e ainda não vimos as concessões e consequentemente a mão de obra empregada que imaginávamos.


Quando falamos em concessão, nós sempre apoiamos as iniciativas do Minfra e queremos que essas iniciativas aconteçam de fato e se tornem obra, porque, quando isso acontecer, serão gerados emprego e a economia vai começar a rodar.


De forma geral, quero tirar a expectativa do meu vocabulário e quero muito que até o final do ano a gente possa comemorar que as obras começaram e que essas concessões vão gerar empregos, porque a melhor forma de sairmos desse período de baixo crescimento econômico é a infraestrutura.


Quando fazemos um apanhado dos assuntos que mais impactaram os setores de transporte em 2021, não podemos deixar de citar o Documento Eletrônico de Transporte (DT-e). Gostaria de saber do senhor qual a importância desse documento eletrônico para o transporte e como ele deve impactar não apenas o TRC, mais os demais setores envolvidos na cadeia logística.


Resposta: Continua sendo uma expectativa muito positiva. Olhando com otimismo, conseguimos enxergar no DT-e o tão sonhado documento único intermodal, e nós sabemos que ele veio para isso, mas ainda é preciso chegar lá. Agora o trabalho da CNT e da NTC é fazer com que a regulamentação tenha como objetivo eliminar documentos.


É uma ideia muito boa, que precisa ser amadurecida. Nós sabemos que mudar uma cultura e tirar todos os documentos não será de uma hora para outro. Temos que ter um acordo muito grande entre os ministérios aqui em Brasília. Temos dificuldades por conta dos documentos estaduais, porém existem muitos de competência federal que podem sim ser colocados direto no DT-e. Em seguida, podemos partir para os documentos estaduais e negociar para que eles também sejam incluídos nesse sistema eletrônico.


Outro assunto muito relevante é a desoneração da folha de pagamento. Recentemente a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2541/21, que prorroga de dezembro de 2021 para dezembro de 2026 a desoneração da folha de pagamentos para 17 setores da economia, entre eles o transporte. Qual a importância dessa prorrogação não só para o transporte, mas para a economia do Brasil como um todo?


Resposta: A desoneração da folha auxiliou no aumento ou pelo menos na manutenção dos empregos no país e esse é o objetivo. Porém, não estou muito otimista de que iremos conseguir manter a desoneração da folha para os próximos anos.


Estamos trabalhando muito, mas não está fácil. Existe a possibilidade de passar, mas ela não virá como Medida Provisória, porque o Ministro Paulo Guedes não concorda com essa desoneração para os 17 setores. Segundo ele, algo com o qual nós também concordamos, o ideal é que tenhamos uma desoneração geral para todos os setores. Porém, se nesse momento não existe a possibilidade de abrir para todos os setores, que se mantenha para os 17 que são os grandes geradores de emprego.


O projeto está na Câmara, e quem tem poder para dar sequência a ele é o presidente da Câmara que está alinhado com o governo federal. Dessa forma, hoje o nosso grande trabalho é de convencimento em cima do presidente Arthur Lira para que ele paute o projeto. Porém, entendemos, e nossa leitura fria é de que isso não será fácil graças à não abertura do governo federal com relação a esse projeto.


Meu desejo é que seja sancionado o mais rápido possível, mas a realidade é complexa. Precisamos que toda a base esteja alinhada e devemos falar insistentemente com os deputados para convencê-los da necessidade e da importância da desoneração da folha de pagamento.


Ainda no âmbito político, precisamos falar sobre as reformas administrativas e tributárias. Mais um ano está acabando, e essas reformas ainda não se desenvolveram como esperávamos. Por que na sua visão elas ainda não avançaram?


Resposta: A reforma administrativa não avançou porque não existe um consenso. O corporativismo das categorias que serão atingidas ainda é muito grande, então principalmente com os cargos públicos ainda não se chegou a um acordo porque eles perderiam benefícios, e ninguém quer trabalhar para isso. Para que essa reforma avance, nós precisaríamos de um governo com um viés muito liberal, disposto a cortar essas questões e a rever os cargos essenciais que realmente necessitam de estabilidade. Eu não acredito que a reforma administrativa aconteça nesse momento.


A reforma tributária é muito necessária, mas da maneira que as propostas estão sendo apresentadas é melhor que não aconteça. Principalmente no setor de transportes, se as propostas continuarem dessa maneira, seriam aumentos tributários de 200 a 300%. Então acredito que nesse momento não seja bom para o nosso setor.


Agora chegando ao final da nossa entrevista, não podemos deixar de abordar os seguidos e incessantes aumentos dos combustíveis, e mais especificamente do diesel no ano de 2021. Como a CNT enxerga esses aumentos, e como a confederação vem atuando nessas frentes para que os setores de transportes não sejam ainda mais afetados?


Resposta: O diesel é um problema mundial. O preço do petróleo está realmente muito alto no mundo todo, então a economia de uma forma geral está sofrendo com essas consequências.


Mas o que o nosso governo brasileiro precisa fazer, e que auxiliaria na redução do preço do óleo diesel, é evitar essas instabilidades fiscais e trabalhar para reduzir o risco Brasil, evitando falas mal colocadas que criam esses movimentos no mercado. A partir dessa estabilidade, a tendência seria, segundo o próprio ministro Paulo Guedes, que o dólar caia. E com a moeda americana baixando seu valor, o petróleo diminui e, consequentemente, o diesel também.


Outra questão que também aumenta o valor do diesel é o biodiesel, que como falamos anteriormente chega a ser oito vezes mais caro que o diesel.


Depois de enfrentarmos praticamente dois anos completos de pandemia, parece que teremos uma normalidade de volta em 2022. Gostaria que o senhor nos contasse quais são as expectativas da CNT para o cenário econômico brasileiro e também para o avanço de concessões e reformas, entre outras, que afetam o transporte.


Resposta: Na área política eu espero muita turbulência. Será um ano de eleição, e isso faz com que tenhamos um ano cheio.


Por outro lado, espero que em 2022 tenhamos finalmente superado a pandemia e que para o próximo anuário da NTC eu possa falar de outros fatores que não a pandemia.

De forma geral, que seja um ano produtivo para todos nós. Que nas eleições tenhamos uma disputa democrática e que se mantenha a vontade e o voto do povo brasileiro para eleger os nossos próximos governantes.


Confira a entrevista na íntegra: