Entrevista com Vander Costa

CNT em ação – resiliência e a organização do setor


Iniciando seu segundo ano de mandato como presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa enfrentou seu maior desafio desde quando entrou para as entidades representativas. Segundo o presidente da Confederação, “a CNT foi surpreendida com a pandemia, o que fez com que todo o planejamento para 2020 fosse descartado e tivéssemos que nos reinventar”.


Porém, a CNT continuou atuando fortemente na representação do setor. “A primeira ação da CNT foi com o objetivo de permitir que o transporte continuasse movimentando o país. No início da pandemia, algumas prefeituras e estados proibiam até que os caminhões fizessem o abastecimento. Então, reconhecer o transporte rodoviário de cargas como atividade essencial foi o primeiro marco, e esperamos que esse reconhecimento seja um legado para o futuro”, completa Vander.


Confira a entrevista completa:


A Confederação Nacional do Transporte é uma das maiores entidades do país. Como foi para você receber esse desafio?


Resposta: Primeiramente agradeço ao presidente Francisco Pelucio por nos convidar e por dar um espaço nesse anuário tão importante para o setor e para o país.


Realmente, assumir a CNT é um grande desafio. A Confederação é responsável por todos os modais de transporte, e para assumi-la no ano passado eu me preparei muito, mas sinto que preciso continuar me preparando, estudando e aprendendo mais. O transporte move o Brasil e muda constantemente; os problemas do transporte no país mudam a cada momento.


Em 2020, por exemplo, fomos surpreendidos com uma pandemia, que fez com que todo o planejamento fosse descartado e que tivéssemos que nos reinventar.


Então, ser presidente da CNT é desafiador e ao mesmo tempo gratificante, pois estamos conseguindo, com nossos associados, vencer os desafios que estão sendo propostos e continuar tendo energia para os próximos que virão.


Você assumiu a CNT no início de 2019. Quais têm sido os principais focos da confederação com relação ao transporte rodoviário de cargas?


Resposta: Quando assumimos no ano passado, a maior demanda que tínhamos era relacionada à tabela de fretes e fazer com que o Marco Regulatório do Transporte fosse aprovado. Além dessa medida, nós trabalhamos para que outras legislações importantes para o setor de cargas fossem definidas, como a questão do seguro.


Era para a tabela de frete ter sido votada em fevereiro, mas o ministro Fucs mandou retirar. Em sequência, devido à pandemia, os trâmites para a aprovação foram pausados e as legislações foram substituídas por medidas referentes à covid-19.


Porém, a CNT continua trabalhando junto ao Judiciário para ver as pautas aprovadas. Apesar da pandemia, o trabalho tem sido intenso, e as pautas do transporte de cargas são aquelas indicadas pelo setor.


Neste ano de pandemia, todas as necessidades aumentaram, principalmente com relação ao transporte rodoviário de cargas. Como foram ações da CNT para poder contribuir não apenas com o transporte de cargas, mas no segmento de transporte como um todo?


Resposta: A primeira ação da CNT foi com o objetivo de permitir que o transporte continuasse movimentando o país. No início da pandemia, algumas prefeituras e estados proibiam até que os caminhões fizessem o abastecimento. Então, reconhecer o transporte rodoviário de cargas como atividade essencial foi o primeiro marco, e esperamos que esse reconhecimento seja um legado para o futuro.


Passada essa fase, por meio do SEST SENAT fomos para as estradas dar apoio aos motoristas, e a primeira abordagem teve o objetivo de conscientizar o profissional a utilizar álcool em gel e máscaras e a seguir as orientações de higienização pessoal e do caminhão. Nesse momento, também foi necessário levar alimento para os motoristas, pois os restaurantes de beira de estrada estavam fechados devido às medidas de isolamento social.


Depois disso, fizemos uma grande ação de testagem da covid-19 nos motoristas, e o resultado foi positivo, pois mostrou que o número de infectados desses profissionais não era superior à média brasileira, mesmo trabalhando.


Também trabalhamos muito com o SEST SENAT para abrirmos as portas e continuarmos oferecendo suporte. Nas regiões que o atendimento presencial era permitido, eles continuaram acontecendo na parte odontológica e de educação. Também convencemos diversos estados para que fosse prorrogada a validade dos cursos obrigatórios para os profissionais do setor.


O SEST SENAT evoluiu muito no ensino a distância. Então nós procuramos trabalhar no SEST SENAT e ITL da melhor maneira possível, e hoje temos a satisfação de estarmos voltando às aulas presenciais.


A CNT cuidou da parte política, fazendo com que a legislação se adequasse à necessidade. Conseguimos a suspensão de pagamentos de alguns tributos nos primeiros meses, o que deu fôlego financeiro para as empresas no primeiro momento. Além disso, continuamos o trabalho para manter o setor e o empresário amparados nesse momento.


Com relação à folha de pagamento, que é um trabalho muito importante, conseguimos com outras entidades a possibilidade de suspensão ou diminuição de 25% da jornada de trabalho e do salário, com o governo entrando com recurso próprio.


Aprendemos a negociar com o governo Bolsonaro fazendo pedidos econômicos que auxiliam todos os setores, e não apenas o setor de transporte. O trabalho aqui em Brasília continua de forma intensa no Executivo, no Legislativo e no Judiciário.


Qual modal de transporte foi mais atingido? Por quê?


Resposta: Passageiro foi o mais atingido. Tanto o aéreo quanto o urbano ou o interurbano.

A imprensa falou muito sobre a proibição de aglomeração, e o transporte de passageiros é concebido no Brasil pela aglomeração. O preço que se paga na passagem no transporte urbano só é viabilizado pelo grande número de passageiros. A partir do momento que as pessoas param de ir ao trabalho e de utilizar o transporte urbano, o prejuízo é enorme. Então o modal está sofrendo. Já estamos vendo o aéreo voltar a decolar, mesmo com a malha bastante reduzida.


Acredito que todas as atividades podem ser realizadas por meio de protocolos aprovados por médicos, sanitaristas e outros especialistas. Para o Brasil crescer, é preciso que todos voltemos a trabalhar com segurança.


Temos visto alguns movimentos e até alguns economistas otimistas em relação à retomada econômica, principalmente para o transporte rodoviário de cargas. Como a CNT tem acompanhado essa retomada econômica?

Resposta: Quem traz as principais notícias do transporte de cargas é a NTC&Logística. O Lauro Valdivia e sua equipe fazem pesquisas importantes e mostram que houve recuperação. O modal de cargas conta com alguns segmentos em crescimento.


Alguns segmentos para o modal de cargas, como os voltados para mineração, o ferroviário e marítimo de cargas, não tiveram quedas pois trabalham com exportação. Quem trabalha com o agronegócio também está sentindo um crescimento graças à safra recorde para o Brasil.


A Associação dos Implementos Rodoviários (Anfir), por exemplo, revelou este ano que vai produzir um pouco mais em 2020 do que produziu em 2019. Isso me leva a crer que o quarto trimestre vai ter um crescimento positivo até em relação ao ano passado. Não suficiente para zerar a perda desse ano, mas pelo menos fecharemos o ano com um trimestre positivo e que nos dará expectativa de um crescimento maior do que o previsto para 2021.


Estou otimista com relação ao ano de 2021, pois mesmo com a pandemia nós cumprimos com a nossa promessa e mantivemos o abastecimento do Brasil.



Mesmo diante das dificuldades impostas pela pandemia e pelos cortes no Sistema S, a CNT e o SEST SENAT são sempre lembrados como entidades que realizaram um trabalho impecável. Como o senhor acredita que, mesmo diante das dificuldades, vocês conseguiram realizar um bom trabalho?


Resposta: Primeiramente, quero agradecer os empresários pelo reconhecimento. Isso se deve pela equipe de excelência que temos formado. O grupo de trabalho é comprometido com resultado, e o sistema em que trabalhamos serve para medi-los e valorizá-los de forma profissional e transparente.


Com relação ao corte do Sistema S, nós sentimos muito, mas acredito que estamos recuperando e que vamos continuar realizando um excelente trabalho para o setor e para o país.


Não foi simples, pois por três meses recebemos 50% do valor relacionado ao Sistema S, mas com o planejamento da equipe foi possível superar, e conseguimos aproveitar a oportunidade para melhorar a qualidade da mão de obra.


Trabalhamos também em conjunto com a CNI, CNC e CNA para que cada confederação divulgasse mais o seu trabalho, enfocando suas bases para mostrar para os deputados e para a sociedade que a contribuição dada para o Sistema S é uma contribuição positiva.


Quais lições o transporte como um todo pode tirar desse momento de crise?


Resposta: Resiliência e organização. O setor teve que ser resiliente para superar mais essa crise, e as empresas organizadas saíram na frente da crise.


É importante qualificarmos os gestores para colocarmos dentro das empresas pessoas que saibam trabalhar com resultados positivos.


O recado que fica é para que os empresários façam a conta, cuidem do seu negócio e trabalhem com lucro, pois esses tópicos serão fundamentais para a sobrevivência da sua empresa, dos profissionais e até da sua família.


Outra questão importante é sobre o valor de pedágios: existe uma solução para melhorar isso? O ministro disse que a nova concessão da rodovia Dutra pode diminuir em até 35% a tarifa. Como o senhor avalia?


Resposta: É possível que reduza 35%, mas não é provável, porque o modelo proposto pelo governo com outorga é para uma redução de 5 a 10%. A Dutra é uma rodovia que já está madura e demanda pouco investimento, mas vai ter que dar contrapartida para poder fazer a BR-101 também. Acredito que o mais importante para o setor de transporte rodoviário de cargas é aplicar a lei. Ela determina que o pedágio tem que ser pago pelo embarcador, então não tem que dar desconto para o embarcador e transferir um custo de pedágio para a transportadora.


A CNT tem trabalhado muito com o governo para que não haja outorga. Se o leilão da Dutra fosse sem outorga, esses 35% seriam possíveis de forma fácil mesmo com o ônus da BR-101. Outra coisa que estamos defendendo é que, para reduzir o custo do pedágio e fazer com que ele seja mais equitativo, é lutar pelo free flow, que faz com que o usuário pague pelo quilômetro rodado, pois isso vai viabilizar a concessão de rodovias que atualmente são tidas como economicamente inviáveis.


Temos que ter um cuidado muito grande na hora de fazer o processo de leilão para evitar que a outorga seja muito grande. Defendemos o pedágio, mas sempre em um valor justo.


Privatizações são um tema recorrente no governo, e o ministro vem anunciando algumas medidas neste sentido. Como o senhor tem acompanhado esse assunto e como as privatizações impactam positivamente no transporte?


Resposta: Para o Brasil ter uma infraestrutura como um todo, a privatização é necessária. Nunca se investiu tão pouco no transporte, em todos os modais, como no governo Bolsonaro. Não tem recurso, e esperar que o governo tenha esse recurso não vai acontecer.


Já estamos com dois anos do mandato do presidente e ainda não tivemos as privatizações das rodovias. O avanço que tivemos com privatizações foi com a dos portos, e nas ferrovias houve renovações das concessões que estavam para vencer.


Defendemos que as rodovias sejam privatizadas, pois dessa forma ficam bem conservadas e com as pistas adequadas ao modelo. A conservação de rodovias vai nos auxiliar a atingir outro grande objetivo, que é a redução de mortes.



Qual a opinião da CNT sobre o possível fim da desoneração da folha de pagamento em alguns setores da economia, como no transporte de cargas? O senhor acredita que isso impactará negativamente a economia como um todo?


Resposta: O nosso trabalho é intenso e junto com os 17 outros setores. Nós temos a maioria consolidada para que a desoneração continue. Fizemos nosso trabalho junto à Casa Civil e mostramos que, com a desoneração por mais um ano, garantiremos a manutenção da quantidade de empregos. Além disso, nos comprometemos em trabalhar junto com o governo para em 2021 fazermos uma reforma tributária efetiva, permanente e perene que faça com que a desoneração aconteça para todos os setores da economia e propicie que o Brasil tenha um crescimento econômico sustentável.


O senhor acredita que o ambiente político fez com que as reformas administrativas e tributárias estagnassem ou que a situação do país em 2020 demandou novas necessidades e olhares?

Resposta: São dois temas muito importantes para a sociedade que tiveram dificuldade em serem debatidos devido a pandemia. Em Brasília, apenas os líderes de bancada estão indo ao Congresso, então são temas muito importantes para a sociedade para serem discutidos por vídeo conferência; falta contato pessoal para essa discussão. Acredito que esse é um dos principais motivos desses adiamentos, e agora temos mais uma eleição que também atrasa o processo de discussão.


Espero que em 2021 a pandemia esteja mais controlada e os protocolos estejam definidos para que possamos trabalhar de forma presencial e conseguir seguir com as reformas.


A melhor reforma que se faz é aquela que é possível fazer.


Falando agora do futuro, o que o senhor espera para o futuro próximo em 2021 e mais adiante nos anos seguintes?


Resposta: Primeiramente, espero que o contato presencial volte a acontecer o mais rápido possível. Tenho a expectativa de que o Brasil e o mundo aprendam a conviver com a covid-19. Não acredito que o vírus acabará tão em breve como o esperado, mas acredito que vamos aprender a conviver com ele, com protocolos seguros e adequados.


Acredito que apenas com os protocolos adequados a economia voltará a crescer. É extremamente necessário que os alunos voltem a frequentar a escola. A educação é fundamental para o crescimento da população.


Tenho dito também que é necessário que os funcionários públicos também voltem a trabalhar. Está na hora de o governo federal, maior empregador do Brasil, desenvolver protocolos seguros para que os trabalhadores públicos voltem às suas atividades com segurança.


Precisamos superar o coronavírus sempre com muita responsabilidade e por meio de estudos que possam auxiliar no crescimento da economia e no desenvolvimento do transporte brasileiro.


Confira a entrevista na íntegra: