Entrevista com Antonio Fernando de Miranda

Polícia Rodoviária Federal dá foco em trabalho integrado para combater roubo de cargas


Formado em Ciências Biológicas, Antonio Fernando de Miranda ingressou na Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 1994 e acumula uma trajetória com grandes operações de combate a organizações criminosas no Brasil. Na PRF, foi chefe da Seção de Inteligência do Estado de São Paulo e era chefe da Delegacia da PRF em Atibaia, até que em 2021 recebeu o convite para assumir a Superintendência do estado, assumindo-a em setembro deste ano.


Segundo Antônio, o foco da PRF tem sido a segurança viária, e as seguidas quedas do roubo de cargas no país são fruto de um trabalho integrado entre os órgãos de segurança pública. “Acredito que após toda a pressão e os números elevados de 2016, os órgãos passaram a encarar o combate ao roubo de cargas de uma forma muito mais séria do que se encarava antigamente”.



Confira a entrevista completa:


Superintendente, para iniciarmos a nossa entrevista, gostaria que o senhor nos contasse um pouco da sua trajetória dentro da PRF e qual a importância, para você, de assumir um cargo tão importante dentro desse órgão do estado.


Resposta: Minha carreira começou em 1993, quando prestei concurso, passei e comecei a atuar em 1994, cobrindo a Fernão Dias, mais especificamente na região de Atibaia. A complexibilidade da via me levou a um aprimoramento policial muito importante para a minha carreira.


Em pouco tempo eu me destaquei com relação ao combate à criminalidade, principalmente com relação ao roubo de cargas. Por meio dessas situações, fui ocupando um espaço dentro da delegacia com uma equipe especializada no combate ao roubo de cargas. Na época nós ganhamos o prêmio do Siga-me Caminhoneiro por possuirmos o trecho de rodovia mais segura do país.


Nessa crescente e com a reestruturação da Polícia Rodoviária Federal, começamos as operações em nível nacional, com uma ação no Rio de Janeiro ao qual fui convocado. Naquela ocasião, minha atuação chamou a atenção do pessoal de Brasília, que me convocou para a equipe nacional da PRF. Assim, passei a liderar essas operações nacionais com um enfrentamento muito grande ao contrabando descabido de produtos pirateados, ao qual sempre fui contra estando sempre do lado do empresariado no combate a essa concorrência desleal.


Graças a esse trabalho, fui indicado para ser chefe da CPI da Pirataria, na qual realizamos diversas operações ao redor do país e na divisa com o Paraguai, principalmente na Ponte da Amizade. Também realizamos várias operações ligadas ao Ministério Público de São Paulo, à Polícia Federal e à Receita Federal.


Ao terminar essa minha jornada no combate ao roubo de cargas e a pirataria, voltei para a Polícia Rodoviária e posteriormente fui convidado para chefiar a Inteligência de São Paulo, na qual fizemos mais de 30 operações, fechando as principais refinarias clandestinas. Voltei para Atibaia para chefiar a delegacia, fiquei por mais um tempo, até que, com a mudança de ministro, junto com o novo diretor, Silvinei Vasques, que conhece meu trabalho, fui convidado para ser superintendente do estado de São Paulo.


Estou à frente da Superintendência há 3 meses e já efetuamos mudanças muito importantes na Inteligência da PRF. Além disso, estamos realizando operações em conjunto com a Polícia Federal e com a Polícia Civil que têm gerado resultados muito positivos para o estado.


Quais vêm sendo os principais focos de atuação da PRF neste ano de 2021?


Resposta: Em primeiro lugar, o foco tem sido a segurança viária, visando dar segurança para o motorista, cobrando mais das questões de concessões, para que eles cumpram devidamente o que estão prometendo e melhorem a questão de sinalização nas rodovias. Estamos juntos com eles também para auxiliar nesse planejamento.


Estamos trabalhando para conseguir novas áreas de descanso para os motoristas profissionais e caminhoneiros autônomos. Pretendo também começar um projeto em parceria com os postos de gasolina para dar um selo da PRF e mostrar que estamos junto com eles, desde que eles nos auxiliem com a melhora na imagem das câmeras. Para isso, queremos mostrar para eles a importância dessas imagens para a melhoria do serviço da polícia de maneira geral e o impacto positivo que essa parceria terá para a sociedade como um todo.


Também não poderia deixar de falar que o nosso foco continua sendo o combate ao roubo de cargas – o que não poderia ser diferente. Estamos muito próximos da Polícia Civil, das equipes especializadas, da Polícia Federal e da Receita Federal para realizarmos operações mais técnicas e assertivas.


Agora sobre o roubo de cargas: estamos vendo desde 2017 uma queda nos índices. No ano passado, segundo pesquisa da NTC, foram registrados cerca de 14.500 casos de roubo de cargas no Brasil, uma queda de 23% em relação ao ano anterior, quando foram registrados 18.382 casos. O que vem sendo feito pela PRF para que esses índices continuem caindo e afetando cada vez menos a vida dos transportadores e dos profissionais do setor?


Resposta: Em 2016, eu vim para São Paulo porque tivemos um grande ápice do roubo de carga no estado. Na época, a BBC de Londres fez uma reportagem dizendo que a Régis Bittencourt era a rodovia mais perigosa do mundo para o transporte de carga. Então, houve uma cobrança muito forte em cima da nossa diretoria.


Quando eu cheguei em São Paulo, começamos a implementar um trabalho mais rigoroso, que resultou nessas quedas. Essas vitórias não são apenas da Polícia Rodoviária Federal, mas também da Polícia Civil, da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal, que desde o início foram parceiros muito fortes para alcançarmos essas seguintes quedas.


O ano de 2016 realmente foi muito negativo, e acredito que a movimentação do empresariado e a reunião das entidades de classe do setor de transporte foram muito importantes para pressionar o governo e para fazer com que todos os órgãos de segurança pública se movimentassem de alguma forma.


A partir disso, começaram a acontecer muitas operações integradas entre as Polícias Federal, Rodoviária Federal e Militar, que se estendem até hoje. Acredito que após toda essa pressão e os números elevados, os órgãos passaram a encarar o combate ao roubo de cargas de uma forma muito mais séria que antes.


Apesar do otimismo, os mais de 14 mil casos registrados no ano passado deram um prejuízo de mais de um bilhão de reais ao setor. O que ainda falta ser feito para que as empresas consigam atuar com maior segurança e tranquilidade?


Resposta: Acredito que, na posição de superintendente de São Paulo, ainda falta uma melhor integração entre os órgãos de segurança pública, algo que já estou buscando fazer para possuirmos maior aproximação e extrairmos melhores resultados. Outra questão que vejo como importante é nos movimentarmos de alguma forma para que o nosso Legislativo passe a criar um mecanismo para que os estados tenham uma maior integração de informações. Essa falta de integração é um fator que nos complica muito para realizarmos estudos e operações mais assertivas, e o ideal seria que as informações e os dados de todo o país estivessem disponibilizados em um local de fácil acesso.


Para finalizarmos este assunto, gostaria de entender do senhor quais as principais medidas as transportadoras e os motoristas devem tomar para se proteger contra o roubo de cargas?


Resposta: A princípio, entender melhor e saber quem é o profissional que está transportando as suas cargas, quem está planejando as rotas e dar boas condições de trabalho e treinamento para esses profissionais.


Do mais, é preciso criar representação política para conseguirmos alterações importantes na legislação, como principalmente essa integração de dados citada anteriormente.


Este ano, a NTC também esteve com a PRF e com o senhor em algumas ocasiões. Em sua visão, qual a importância de uma entidade como a NTC estreitar as relações com a PRF?


Resposta: Na minha visão, o principal é o apoio político, no sentido de ouvir mais a realidade das situações de ambos os lados e de levar essas questões para os cargos políticos que podem trazer modificações de leis e amparo para o setor.


Também acredito que essa aproximação gera conscientização tanto nos policiais como nos empresários e principalmente nos motoristas, que auxiliam na segurança viária ao redor do nosso país.


Quais frutos esse relacionamento mais próximo pode oferecer ao setor de transporte rodoviário de cargas?


Resposta: De maneira geral, o principal fruto é uma maior proteção, uma maior segurança e consequentemente a diminuição de gastos e de perdas para os empresários do TRC. Esse relacionamento mais próximo também auxilia na qualidade de vida do motorista, que com rodovias mais seguras se sente mais confiante para trabalhar e fica mais tranquilo com a família.

A aproximação da PRF com o setor de transporte rodoviário de cargas glorifica tudo e é uma mudança positiva bastante significativa.


Para finalizarmos, gostaria que o senhor enviasse uma mensagem aos transportadores que estão nos acompanhando.


Resposta: Em nome de toda a Polícia Rodoviária Federal de São Paulo e do Brasil, nós dizemos que vocês são uma peça fundamental para o país, pois toda a movimentação de carga é feita por você, transportador, e por você, motorista.


Contem sempre com a PRF e tenham certeza de que, ao que depender da minha parte, da parte dos gerenciadores, dos chefes e das delegacias da PRF de todo o estado de São Paulo, estaremos empenhados para promover, ao longo de todos os trechos das rodovias federais do estado, uma melhor segurança viária e um melhor combate ao roubo de cargas e à venda de medicamentos irregulares e de drogas.


Muito obrigado pelo apoio de todos vocês. Mais uma vez, contem conosco!


Confira a entrevista na íntegra: