Entrevista com Paulo Lustosa

FENATAC busca aproximação política para ampliar discussões e defender interesses do setor


Sócio diretor da Brugavi Transportes LTDA e presidente da Federação Interestadual das Empresas de Transporte de Cargas (FENATAC), Paulo Afonso Lustosa acredita na aproximação política como uma das principais ações para que o transporte rodoviário de cargas (TRC) seja melhor representado.


“Nós ainda dependemos muito desse cenário político. Não temos ainda uma estabilidade a ponto de manter uma relação diferenciada com a casa legislativa, então acredito que quanto maior a aproximação e quanto melhor a relação com estes parlamentares, melhor serão os resultados que o TRC poderá alcançar”.


Confira a entrevista completa:


Pudemos ver que, em relação ao último ano, houve boa melhora no setor, mesmo com a continuidade da pandemia. Como o senhor reflete sobre a melhora e qual balanço pode ser feito sobre o ano para a FENATAC?


Resposta: Com relação à melhora, temos como base de comparação o ano de 2020, que foi muito ruim por conta do início da pandemia e do impacto causado por ela. Em 2021, essa melhora ocorreu em decorrência da adaptação do comércio, da população em si, que aumentou os gastos com produtos alimentícios e encorpou o e-commerce na sua rotina de compras. Então, no geral, acredito que essa melhora é relativa, levando em conta a nossa comparação com o ano de 2020.


Em entrevista no final de 2020, o senhor disse que um dos objetivos era ampliar o clube de benefícios, parceiros e serviços, além de aproximar mais a FENATAC dos seus associados, bases e sindicatos. De que forma isso foi possível mesmo neste período de transição entre os eventos de 2020 e a retomada gradativa do setor em 2021?


Resposta: Nós não conseguimos realizar todo o planejamento que havíamos traçado justamente pela continuidade da pandemia e das restrições que tivemos que cumprir. Mesmo com os desafios, não deixamos de promover eventos, reuniões e atividades que pudessem levar conhecimento ao empresário com relação ao nosso pacote de benefícios.


Estamos conversando com os presidentes dos sindicatos que compõem a base da FENATAC no sentido de divulgar essas ações para que possamos alcançar os nossos objetivos de auxiliar o maior número possível de empresários do TRC.


Apesar dos avanços com a vacinação, ainda estamos caminhando para a retomada dos eventos presenciais. Qual papel dos eventos híbridos, como o Café com Transporte e Logística Digital, para a contínua conversa com pessoas do TRC?


Resposta: Acredito que os eventos híbridos dificilmente deixarão de existir, porque trouxeram uma facilidade e uma comodidade muito grandes para os participantes. Sobre os eventos que realizamos, eles têm, sim, guardadas as limitações, cumprido seus objetivos.


Em 2021, a região do Centro-Norte teve uma alta na produção do agronegócio, principalmente em Goiás. Como o crescimento do agronegócio na região ajudou a impulsionar o setor de transporte de carga e a não deixar a economia estagnada no momento que estamos?


Resposta: O agronegócio tem contribuído bastante para o crescimento do país e para a sustentação da economia. A região Centro-Oeste tem um papel importante nesse sucesso do agronegócio e, consequentemente, no desenvolvimento do setor de transporte especializado nesse segmento.


Todos esses fatores positivos vindos do agronegócio, principalmente, são importantes para que o país tenha um desenvolvimento econômico. Quando falamos desse setor e do segmento de transporte de cargas, sabemos que o impacto que eles possuem é muito grande. Então, quando um deles vai bem, esperamos que outros setores também se desenvolvam e auxiliem no crescimento da economia brasileira.


Falando em agronegócio, a crise hídrica pela qual o país está passando, com a estiada das chuvas e com a diminuição dos reservatórios, pode afetar o setor como um todo. Que medidas a FENATAC incentiva para evitar o recuo econômico que a crise hídrica pode causar e de que forma o TRC pode ser afetado?


Resposta: A crise hídrica impacta fortemente a geração de energia, principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, mas no agronegócio, e em algumas ocasiões, as chuvas foram suficientes para que pelo menos o setor não fosse prejudicado. Então a crise hídrica, com referência à geração de energia, não possui muita relação com a produção agropecuária.


Aqui na FENATAC, incentivamos muito para que os empresários tenham a máxima economia possível, desde questões financeiras, com uso racional de energia, até na constante busca por substituição da matriz energética, com veículos elétricos e com o incremento da energia fotovoltaica.


Também não podemos deixar de falar sobre a alta dos combustíveis nesse último ano. No acumulado até agosto, o preço médio do combustível avançou 31,8% segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Como a FENATAC vê esses aumentos?


Resposta: Nós temos criticado bastante esse critério de formação de preço que a Petrobras adotou nesses últimos anos, que é o preço de paridade de importação, ou PPI. Temos advogado que é necessária uma previsibilidade dos aumentos dos combustíveis. É verdade que esse aumento indiscriminado acontece também por conta da variação do dólar e do petróleo, porém, quando há a diminuição nos preços, não sentimos o mesmo impacto nas bombas, e isso tem prejudicado fortemente a composição do preço do frete no nosso setor.

Em minha visão, é lamentável que a Petrobras não tenha tomado uma posição de garantir uma previsibilidade maior nos preços dos combustíveis.


Ainda sobre a alta dos combustíveis, a Lei nº 13.263/2016 prevê uma adição elevada de biodiesel para tentar frear o custo do diesel rodoviário. Quais cuidados o caminhoneiro e as empresas do TRC precisam ter com os caminhões para que a medida não afete os veículos nem traga prejuízos ao setor?


Resposta: Nesse momento temos observado que ele aumenta o valor da composição, porque o preço da soja hoje está muito elevado no mercado internacional. Além disso, vimos constatando empiricamente que, quando essa mistura é superior a 7%, há danos ao funcionamento do veículo.


Apesar de todos os trâmites para aumentarem a porcentagem de biodiesel no diesel, tivemos recentemente uma boa notícia de que, nesse momento, a porcentagem ficará estabilizada em 10%. Ainda é um pouco acima do que enxergamos o ideal, mas é um caminho para avançarmos nessas questões e para encontrarmos caminhos mais viáveis do que apenas a adição do biodiesel ao diesel.


Agora entrando em assunto político, como a FENATAC enxerga o Documento Eletrônico de Transporte (DT-e), aprovado pela Medida Provisória 1.051? Quais seriam, em sua visão, as maiores dificuldades e melhorias com a sua implementação?


Resposta: Com relação ao DT-e, ainda estamos aguardando a regulamentação que nos foi prometida e que incluiria nossa participação desse trabalho, o que ainda não ocorreu.


A FENATAC ainda não possui uma posição muito bem definida, porque ainda não temos a certeza de como a operacionalização desse instrumento acontecerá. Particularmente, não acredito que trará um benefício, pois nesse momento ele não se caracteriza como um documento único, e sim mais uma burocracia. Então não vejo nada positivo nesse momento, apenas uma regulamentação excessiva do governo em nossa atividade.


O senhor também tem estado presente em conversas importantes com parlamentares, como o deputado Eduardo Bolsonaro e o deputado Carlos Chiodini, presidente da Comissão de Viação e Transporte. Qual a importância dessa conversa contínua com representados do governo e quais avanços o senhor acredita que esses encontros podem proporcionar?


Resposta: Infelizmente, nós ainda dependemos muito desse cenário político. Não temos ainda uma estabilidade a ponto de manter uma relação diferenciada com a casa legislativa, então acredito que temos que estar próximos porque a movimentação desses assuntos que nos atingem é muito grande.


Acreditamos que quanto maior a aproximação e quanto melhor a relação com esses parlamentares, melhor serão os resultados que o TRC poderá alcançar.


Ainda falando sobre articulações políticas, o senhor, em conjunto com outros empresários do transporte de carga, encaminhou ao presidente da Câmara, Arthur Lira, uma carta alertando sobre as mudanças em votação para o Imposto de Renda (IR). De que forma a reforma do imposto de renda pode afetar o setor de transporte de cargas?


Resposta: Nós entendemos que essa questão do Imposto de Renda é uma bitributação da distribuição de lucro, e isso claramente afeta todo o setor produtivo e o nosso segmento.


Precisamos então pressionar os parlamentares para que eles se atentem a essa e às demais questões de bitributação para que não tenhamos uma carga tributária ainda maior do que temos atualmente.


Os investimentos em infraestrutura para a restauração de estradas e para a criação de novos traçados rodoviários, que facilitam a ação do transporte de cargas, têm tido um crescimento no último ano, mas ainda há um longo caminho a ser feito para melhorar a condição das estradas. Em quais aspectos o senhor sente que podemos avançar em relação à infraestrutura, principalmente na região do Centro-Oeste?


Resposta: Esse crescimento no investimento em infraestrutura tem sido muito pequeno. Nós precisamos que um orçamento contínuo e robusto seja aplicado e investido na infraestrutura. O Brasil depende disso, visto que o país é dependente do transporte rodoviário de cargas.

Também defendo e acredito que precisamos de um investimento robusto em ferrovias, nos modais portuários e aéreos, para que o país tenha condição de crescimento sustentável.

Infelizmente, não temos observado essa preocupação e esse cuidado por parte dos representantes públicos.


Para começar a encerrar nossa conversa, quais são as suas projeções para o setor no próximo ano? Com o impulsionamento da vacinação e a retomada da economia, é possível esperar um fortalecimento no setor do TRC?


Resposta: A projeção para o crescimento econômico do país, em minha visão, não é boa. O que antes era de mais de 1% agora diminuiu e estamos abaixo. Temos que acompanhar essas novas mutações do coronavírus, torcer para que a ciência consiga frear seus avanços e impactos e que, assim, a população de uma maneira geral possa ter seu direito de ir e vir, de trabalhar e de atuar sem restrições.


O ano de 2022 é um ano político, o que traz uma dificuldade a mais. Dessa forma, teremos que seguir trabalhando bastante para que não tenhamos números negativos com relação às atividades econômicas.


Quais são suas expectativas e projetos para o próximo ano com relação à FENATAC? Já existem ações pensadas?


Resposta: Existem, sim, ações planejadas. Estamos programando para que, caso não tenhamos mais restrições da pandemia, voltemos com os nossos eventos presenciais. Temos programado uma feira regional para o mês de maio, queremos retornar com os Cafés da FENATAC para debater assuntos importantes para o transporte e pensamos em consolidar nos acordos e discussões das convenções coletivas os benefícios aos colaboradores que trabalham no transporte. Com isso, desejamos alcançar o objetivo de estreitar as relações com os empresários e, consequentemente, a aproximação deles com as entidades representativas.


Para terminar, gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os transportadores.


Resposta: A mensagem que quero deixar é de esperança e de atitude proativa. Precisamos acompanhar o desenrolar do cenário político, preparar as empresas para a contínua economia das fontes de energia, acompanhar as questões climáticas e esperar que possamos ter um bom desempenho dos nossos representantes políticos para que tenhamos eleições pacíficas. Dessa maneira, poderemos ter a tranquilidade para escolher os próximos representantes que contribuirão com o desenvolvimento do nosso país.


O Brasil tem um potencial enorme e precisamos realizar um bom trabalho de maneira contínua para que ele se torne um país melhor para se viver e para que tenha um ambiente de trabalho menos hostil do que este que estamos atravessando.