Entrevista com Paulo Afonso Rodrigues

A relação de impacto da pandemia e a política brasileira


Com atuação no Centro-Oeste do país, a FENATAC encontrou diversos desafios no segmento de transporte rodoviário de cargas. De acordo com Paulo Afonso Rodrigues, presidente da federação, “em Goiás, por exemplo, o transporte foi listado como atividade principal, porém as borracharias, os restaurantes à beira da estrada e as demais atividades complementares ao transporte não estavam abertas. Como o profissional poderia sair com o caminhão sem a assistência necessária? Nós demoramos 15 dias para convencer o gabinete de crise do estado de que esses serviços também precisavam ficar abertos”.


Confira a entrevista completa:


Primeiramente, muito obrigado pelo senhor ter aceitado nosso convite. Para começarmos, poderia contar sobre como tem sido o trabalho da FENATAC no sentido de dar apoio às entidades?


Reposta: No começo do ano para cá, logo quando os assuntos da pandemia estavam sendo discutidos, o Distrito Federal foi um dos primeiros estados que tomaram as medidas de isolamento social. Então a FENATAC, que é participante de um fórum empresarial do Distrito Federal, buscou apoio das entidades federais, e bem no começo do ano conseguimos uma linha de financiamento para as empresas de transporte e já visualizamos as dificuldades pelas quais as empresas passariam na pandemia.


Procuramos de alguma forma nos aproximar dos sindicatos de base para dar apoio a essas questões da legislação, para dar assistência na interpretação das leis e para defender os direitos dos transportadores.


Foi e tem sido um ano muito difícil, com muita retração, e buscamos agora dar a condição para o empresário acompanhar a retomada da economia.


Como foram as demandas dos empresários? Do que eles precisaram nos momentos mais críticos?


Resposta: Em Goiás, por exemplo, o transporte foi listado como atividade principal, porém as borracharias, os restaurantes à beira da estrada e as demais atividades complementares ao transporte não estavam abertas. Como o profissional poderia sair com o caminhão sem a assistência necessária? Nós demoramos 15 dias para convencer o gabinete de crise do estado de que esses serviços também precisavam ficar abertos.


No nível municipal, em pequenas cidades do interior, sempre houve demandas nesse sentido.


Como o senhor falou, tivemos o decreto do governo reconhecendo a atividade de transporte como essencial e tivemos algumas medidas provisórias do governo que visaram ajudar o empresário a manter de alguma forma as empresas. Como os empresários da base utilizaram essas medidas? Elas foram suficientes?


Resposta: Essas medidas foram tomadas no momento certo, mas não tiveram efeito. A medida provisória liberou recurso, mas os bancos oficiais e privados não garantiram que esse recurso chegasse no momento que os empresários precisaram. Houve um retardo na liberação de recurso – não na legislação, a tomada de decisão do governo foi perfeita –, mas a operacionalização desse benefício demorou e em muitos casos nem chegou.


Existem muitas empresas, não apenas de transporte, que fecharam e não abrirão mais, tudo por conta dessa dificuldade de operacionalizar e distribuir esses recursos. Onde era preciso chegar, na velocidade e no momento certos, não chegou.


Com relação ao emprego, tivemos muitas demissões?


Houve bastante demissões, a atividade é essencial, mas com comércio fechado criou-se uma queda na demanda e uma grande dificuldade para o empresário.


Falando um pouco da retomada da economia, como o senhor tem visto esse momento? Já podemos acreditar que a retomada está acontecendo?


Resposta: Nós estamos esperando essa retomada desde o ano retrasado, estamos passando por um período de grande dificuldade, de recessão econômica e de crescimento negativo. Com o governo novo, acreditávamos que 2020 seria o ano dessa tão sonhada retomada, porém veio a pandemia e tivemos diversos problemas. Agora criamos a expectativa de que em 2021, com a vacina eficaz, conseguiremos um crescimento regular e estável.


Acredito que a economia do Brasil tem um potencial para se recuperar rapidamente, e com ela o setor de transporte, que é uma atividade que conecta todos os demais setores, também será alavancado. Se obtivermos o crescimento projetado, será espetacular.


Qual legado esse momento complicado deixa para o país?


Resposta: A pandemia evidenciou a nossa fragilidade e incapacidade política e deixou claro que falta harmonia no governo federal. As medidas do governo não surtiram efeito porque cada governador e prefeito tinha autonomia para tomar suas decisões, e nos estados da nossa base os governadores nem conversaram com os prefeitos, ou seja, falta profissionalismo. Além disso, o sistema apresentado neste momento foi frágil e ineficiente.


O legado que fica é que precisamos evoluir muito no trato político e nas estruturas de governo para que uma situação dessa, caso volte a acontecer, não cause o impacto que essa causou.


Estamos acompanhando algumas empresas que aproveitaram esse momento para mudar os seus processos em relação a tecnologia e a realmente entrar, mesmo que forçado, em um novo momento de empresa. Como o senhor tem visto isso?


Resposta: Interessante, isso. Tem empresa que aproveita o momento e se destaca por meio da inteligência administrativa. Todos nós temos capacidade de adaptação. É só pararmos para analisar o que aconteceu com a maioria das empresas, com as videoconferências, que se mostraram uma ferramenta muito importante para as reuniões.

Além disso, as empresas que conseguiram fazer essa reformulação do comercial e da comunicação com o cliente, que aprimoraram seus processos por meio da inteligência, conseguiram crescer nesse momento.

Este é o lado positivo da crise: empresas que conseguiram se reestruturar e se reinventar e assim tiveram um salto de tamanho e qualidade.


O que o senhor espera para 2021?


Resposta: Primeiramente, espero uma solução para essa grave doença. Em seguida, uma recuperação firme, com liberdade econômica e menos burocracia, pois assim o país vai se desenvolver. É o que eu espero para 2021: que entremos nessa espiral crescente que o país e o povo brasileiro merecem. Nós temos potencial para isso.

Outro ponto interessante que espero para 2021 é um investimento maciço e continuado nos setores de transporte rodoviário e marítimo. Isso não prejudicará o rodoviário, mas auxiliará o crescimento e o aumento de investimento nas regiões do interior do Brasil.


Para finalizarmos, gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para o transportador que vai ouvi-lo.


Resposta: Acredite no Brasil e no seu negócio e faça o trabalho correto. A partir daí, não teremos erro: o país vai se desenvolver e todos nós conseguiremos aproveitar esse bom momento.


Confira a entrevista na íntegra: