Entrevista com Luiz Carlos Moraes

O gerenciamento dos fabricantes de veículos durante a crise política no Brasil




Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) desde 2019, Luiz Carlos Moraes afirma o impacto da pandemia na indústria automobilística como um todo. “A partir da segunda quinzena de março, as concessionárias e os Detrans foram fechados, e nossos negócios foram substancialmente afetados.

Além disso, o presidente da entidade acredita que o segmento de transporte e indústria estão passando por uma grande transformação. “A sociedade e o consumidor estão mudando, então consequentemente a mobilidade também precisa mudar. Esse é o grande dilema do nosso setor”.


Confira a entrevista completa:

- Para iniciar a entrevista, gostaríamos que você nos contasse um pouco da sua trajetória no setor até a chegar à presidência da Anfavea. Você sempre almejou atuar em um cargo tão importante como esse?

Resposta: Primeiramente é um prazer atender à NTC&Logística e fazer parte do anuário. Estamos sempre à disposição para contribuir com o setor de transportes.

Trabalho no setor há algum tempo. Atuei na Mercedes-Benz por muitos anos, principalmente na área de veículos comerciais, mas também na área de automóveis, vans e ônibus, então tenho uma experiencia ampla no segmento. Eu já atuava na Anfavea em comissões e como vice-presidente desde 2011/2012, e em 2019 me tornei presidente.

Desde então, atuo nessa posição na Anfavea e estamos aqui trabalhando em prol do desenvolvimento do setor e da indústria.


- Como citado por você e de conhecimento das pessoas que te acompanham, o senhor foi diretor de relações governamentais e comunicação corporativa da Mercedes e agora é presidente da Anfavea. Como acontece esse processo de transição dentro da associação?

Resposta: A associação tem um processo de eleição a cada três anos, então meu mandato vai de abril de 2019 a abril de 2022. Porém, temos um time de diretoria que são representantes das empresas, que participam em conjunto com os funcionários da Anfavea e que tem o objetivo de representar a indústria em todos os momentos que ela precisar.


- O que a Anfavea representa e qual é a sua atuação?

Resposta: A Anfavea representa 27 empresas fabricantes de automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e rodoviárias. Ao todo, temos 65 fábricas em 43 cidades e em 10 estados, portanto a Anfavea possui uma abrangência muito grande. O setor é responsável por cerca de 120 mil empregos diretos, e temos uma capacidade técnica de reproduzir cerca de 5 milhões de veículos por ano.

Temos também uma representatividade relevante em termos de faturamento. O impacto no PIB do país já chegou a 4%, e representamos cerca de 18% do PIB industrial. Então é muito importante, a indústria automobilística tem uma cadeia muito longa. Ao juntar fornecedores e rede de concessionárias, percebe-se que é uma indústria cujo impacto é muito relevante na economia.

A missão da Anfavea especificamente é atuar nas diversas áreas que envolvem nosso setor, no regulatório, com relação às novas normas que serão adotadas pelo setor, no comércio exterior, atuando em conjunto com o governo na definição de acordos comerciais entre os países, além de atuar também em temas relevantes para a sociedade, como a reforma tributária.

São vários itens em que atuamos, e a função da Anfavea é compilar e coordenar essas sessões no sentido de trazer para a indústria e para o país a melhor solução naquele determinado momento.



- Em um tom geral, quais os principais desafios da Anfavea no Brasil?

Resposta: Estamos passando por uma grande transformação enquanto indústria aqui no Brasil. A sociedade e o consumidor estão mudando, então consequentemente a mobilidade também precisa mudar; esse é o grande dilema do nosso setor. Como tratar a conectividade, a eletrificação e o compartilhamento de veículos e como trazer os veículos autônomos para o nosso setor?

Estamos discutindo esses temas dentro da realidade do país, por meio do custo Brasil e das dificuldades financeiras e burocráticas. Dessa forma, o desafio da Anfavea é trazer para o Brasil essa indústria que está se transformando lá fora, oferecendo ao nosso cliente um produto tecnologicamente avançado e que reduza o custo do transporte com mais segurança, conforto e conectividade.


- O ano de 2020 foi atípico. Graças à pandemia do novo coronavírus grande parte da indústria foi afetada. Como a Anfavea se posicionou para contribuir de alguma maneira com as empresas que ela representa?

Resposta: Nós estávamos começando o ano em um ritmo muito bom, com um crescimento em relação a 2019, mas infelizmente, como o Brasil todo, fomos impactados de forma muito forte pela pandemia. Então, a partir da segunda quinzena de março, as concessionárias e os Detrans foram fechados, e nossos negócios foram substancialmente afetados.

O nosso primeiro trabalho foi no sentido de gerenciar aquele início da crise, como abrir as concessionárias e atender aqueles veículos em manutenção, como gradativamente abrir os Detrans para voltar a fazer negócios, como ajudar a cuidar da saúde dos nossos trabalhadores, já que temos fábricas com 5 a 8 mil funcionários. Então criamos um protocolo de saúde usando as experiências e o que de melhor foi feito na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos para voltar com os negócios de forma segura. Mudamos muitas coisas dentro das nossas fábricas para poder comportar da forma correta os trabalhadores.

Quando a nossa produção estava parada, conseguimos ajudar a sociedade com a manutenção de respiradores para os hospitais, já que muitos estavam desativados por falta de manutenção. Então os trouxemos para nossas fábricas, fizemos a reparação e os devolvemos para o sistema público de saúde. Ajudamos também a construir novos respiradores, disponibilizamos veículos e fizemos diversas doações. Enfim, nós fizemos muitas ações solidárias para ajudar a sociedade a enfrentar o vírus nos meses iniciais da pandemia.

Com relação à economia, começamos a trabalhar em mecanismos para diminuir os impactos da pandemia. Colaboramos com sugestões da Medida Provisória 936, que se referia à suspensão e à diminuição da jornada de trabalho e a outras medidas referentes a capital de giro e a redução de impostos que pudessem ajudar não apenas o nosso setor, mas o geral.


- Como o senhor avalia esse envolvimento do governo no atendimento às empresas? As medidas tomadas foram suficientes para diminuir o impacto da pandemia nas organizações?

Resposta: Acredito que na questão trabalhista, por meio da MP 936, sim. Foi uma medida muito importante aprovada rapidamente e que ajudou diversos setores. Porém, o governo não auxiliou grandes empresas, então o nosso segmento não teve nenhum apoio, mesmo em linhas de créditos.


O governo federal injetou dinheiro na economia com o auxílio emergencial e, segundo os dados, o Ministério da Economia liberou cerca de 600 bilhões de reais, o que estimulou outros setores com o consumo e indiretamente ajudou a economia. Do ponto de vista social, esse auxílio do governo foi correto e ajudou indiretamente a economia a passar desse período crítico de pandemia.


- As vendas de caminhões vêm variando entre quedas e altas durante os últimos meses. Como a Anfavea explica essa instabilidade? Ela já estava prevista por conta dos impactos causados pelo coronavírus?

Resposta: Ninguém nunca tinha passado por uma pandemia, então não foi uma crise econômica somente, mas uma crise sanitária que trouxe consequências econômicas. No início, paralisamos as fábricas, e depois de um período retomamos e percebemos um movimento de procura de caminhões, puxado principalmente pela alta do agronegócio, que continua sendo uma grande alavanca da economia. A logística também teve um momento importante com a distribuição urbana e com o aumento das vendas por e-commerce.


Agora estamos voltando a ter um entendimento melhor do mercado. Existe ainda algumas dúvidas de quais segmentos vão alavancar a economia, mas já podemos perceber que caminhões terão uma queda menor do que os automóveis e ônibus, que foram substancialmente mais impactados.


- Levando em conta as projeções feitas no início deste ano, o senhor acredita que já estamos nesse processo de retomada econômica ou ainda falta muito para pensarmos em algo nesse sentido?

Resposta: É muito difícil fazer uma previsão, porque estamos com um grande problema de saúde que afeta a sociedade, ainda temos um número substancial de pessoas sendo infectadas e temos diferentes situações por estados. Ninguém sabe exatamente o que esperar. Mesmo os economistas não conseguem analisar corretamente graças a essas incertezas que nos cercam. O que nós esperamos é que o Brasil tenha o controle na saúde até termos vacina e remédios que nos deem mais segurança.


Temos também uma preocupação com relação à forma como a economia vai reagir quando o governo deixar de liberar o auxílio emergencial. Portanto, ainda existem muitas dúvidas de como será essa transição de 2020 a 2021.


Esperamos que o governo implemente e retome a aprovação das reformas, porque sem elas a confiança do consumidor pode diminuir. Apesar de esperarmos que não, podemos voltar a patinar e ter maiores problemas, mas ainda é muito difícil criar uma previsão. Estamos tentando entender um pouco melhor como vai ser esse ajuste no final deste ano e no início de 2021.


- Ainda sobre as expectativas para 2021, gostaria de saber de que forma o senhor, presidente Luiz Carlos Moraes, espera receber o próximo ano e de que forma o senhor acredita que podemos evoluir nesse processo.

Resposta: Volto a frisar que não podemos descuidar da questão sanitária. Estamos vendo o que está acontecendo na Europa, com novos aumentos de contaminação. Então partindo do pressuposto que teremos um controle no ano que vem, então espero que o governo volte a prosseguir com a aprovação das reformas, traga confiança para o mercado e faça com que o setor e o consumidor estejam estimulados a produzir e consumir. Essas reformas também são fundamentais para voltarmos a investir de forma robusta na infraestrutura.


Dito isso, podemos imaginar que em 2021 teremos um crescimento. Ainda não temos o número da Anfavea, mas esperamos que essa retomada aconteça e que o próximo ano seja muito melhor e mais produtivo que 2020.


Confira a entrevista na íntegra:


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