A Evolução dos Custos do Transporte Rodoviário de Cargas em 2021


Embora, parte significativa da população brasileira esteja vacinada, o ano de 2021 não foi fácil para o setor de transporte rodoviário de carga. E tudo indica que em 2022 as coisas não devam melhorar, pois será um ano eleitoral. O cenário do ano mostra, ascensão da inflação em níveis altíssimos, e é oportuno lembrar que estamos passando por um período difícil, com os combustíveis acumulando uma alta de quase 50% em 12 meses, o estado de pandemia que persiste e ocasiona queda na demanda de carga, aliada a aumentos de custos dos demais insumos na casa de 20 a 30%.


Desta maneira, observamos que o transportador, ao longo do ano, viu suas receitas encolherem por conta do menor volume de carga, dos fretes mais baixos e dos seus custos aumentarem por conta da elevação dos insumos e da mão de obra, além do aumento da participação dos custos fixos devido a queda na produtividade.


Evolução dos Principais Insumos


Combustível - Diesel

O ano de 2021 iniciou com um aumento expressivo de combustível, já em fevereiro, de 12,49% para o diesel S10 e 13,23% para o diesel comum. E, no princípio de maio, houve outro reajuste de 6,67% para o diesel S10 e 6,87% para diesel comum, vale ressaltar que essas variações se dão pelo acompanhamento do preço médio Brasil divulgados pela ANP, que se incorporado integralmente ao preço final chega-se a um acumulado de quase 30% no ano.


É evidente que o peso do combustível nos custos do transporte é calculado em função da quilometragem que o veículo roda em suas operações, desta forma, quanto mais se roda, mais combustível se consome e maior é a participação deste no custo total da operação.


Mão de Obra – Motoristas e Ajudantes

Com a retomada do mercado e flexibilização das restrições, os reajustes salariais do setor atingiram em 2021 a média de 7,59%. Neste caso, por se tratar de um custo fixo, o peso da mão de obra tem maior participação nas operações onde se roda pouco. Esta característica faz com que o segmento de carga fracionada, que demanda uma quantidade grande de funcionários, tenha um peso significativo da mão de obra, principalmente nas operações de coleta e entrega, onde o veículo roda pouco e normalmente se trabalha com uma tripulação composta de 1 motorista e um ou dois ajudantes.


Veículo – Caminhão, cavalo mecânico e semi reboque

Outro insumo que tem uma participação expressiva é o veículo e o seu implemento, até porque, seu valor influencia vários custos: manutenção, taxas e impostos, que têm como base o valor do veículo (IPVA), seguro do casco, além da depreciação do veículo e da remuneração do capital empatado.


O valor do veículo subiu substancialmente neste ano, os com vocação rodoviária tiveram aumentos expressivos de 25,08%, seguido do veículo urbano utilizado na operação de transporte de coleta/entrega com 23,64%. O semirreboque da lotação e do caminhão trucado da fracionada tiveram seus preços praticamente estáveis ao longo do ano.


Despesas Indiretas (administrativas)

As despesas indiretas têm papel significativo no segmento de carga fracionada, onde, em alguns casos, podem representar quase metade dos custos envolvidos. No segmento de carga lotação, elas giram em torno de 10%. Fazem parte da relação destas despesas, custos que tiveram aumentos consideráveis, tais como: aluguel, a mão de obra administrativa, energia elétrica, água e juros.

No ano de 2021 tudo isso representou aumento de 8,66% para a carga fracionada e 23,65% para a lotação.


Demais Insumos

Os outros insumos que tiveram variação contundente foram: a manutenção com variação de 6,54%, seguros com 22,06% e o pneu com 17,06%.


Panorama do índice nacional do custo de transportes – INCT

A inflação do setor de transporte rodoviário de carga, no ano de 2021 (até agosto) atingiu patamar histórico, o INCTL bateu o seu maior valor em 12 meses desde a sua criação em 2003 alcançando 25,31% e, o INCTF, com 22,47%, só teve um valor superior á 26 anos, ou seja, em agosto de 1995.

Se observamos, é possível notar uma crescente no INCTL e INCTF em relação ao IPCA, pois ao longo dos 12 meses houve aumentos expressivo de combustível chegando à casa de 37%, veículo em 25%, seguros 30,58%, pneus 20,31% e por fim o dissídio salarial 7,59%. Já no ano, houve aumentos relevantes nos meses iniciais de 2021, por conta dos reajustes do óleo diesel na refinaria e em junho reajuste salarial da categoria, bem como um crescente aumento dos veículos rodoviário e urbano.

Desde o início do ano, o INCT soma alta significativa em média de 16,25%, sendo 14,67% para o segmento de carga fracionada e 17,83% para lotação, valores que se colocam bem acima da inflação medida pelo IPCA de 5,67%. Sua trajetória é crescente e tudo indica que o patamar alcançado em 2021 permaneça elevado em 2022.

Previsão para 2022

Estudos do DECOPE indicam que a inflação no TRC é, como já citado, o maior dos últimos 26 anos, principalmente, causado pelo aumento do combustível, até maio foram dois aumentos robusto de combustíveis, aliado, em junho por um repasse salarial, além da elevação dos demais insumos do TRC.


Tudo indica que em 2022, se a situação política e econômica não se agravar, os custos deverão seguir no mesmo ritmo. Visto que, as incertezas no campo político, a inflação alta, juntamente, com os efeitos da crise hídrica exercem pressões sobre a produção e o consumo, com o risco iminente de racionamento, por fim, ainda paira no ar as incertezas com o desfecho da pandemia no Brasil e no mundo.


E, antes de ser catastrófico, mas sendo apenas realista, é importante que as empresas que atuam ou usam o transporte rodoviário de carga, se conscientizem e leve em consideração em seu planejamento, a pressão existente sobre o custo do setor em 2021 e muito provavelmente em 2022.


Tudo indica que durante o ano de 2022 ocorram mais aumentos do diesel e dos demais insumos, o que deve manter o INCT acima dos 20% ou na melhor das hipóteses na casa dos dois dígitos. Razões para esta conclusão não faltam, basta verificar a variação do dólar e o aumento constante do preço do barril de petróleo.


Enfim, o ano não deve ser bom. Portanto, os empresários do setor devem ter o bom senso, apesar de o mercado não favorecer esta atitude, de trabalhar forte na valorização do seu serviço e, principalmente na redução dos seus custos: eliminando os desperdícios e aumentando a produtividade. É importante, neste momento, que se tome muito cuidado com os acertos comerciais para que estes não contribuam para a piora da situação. Providências que são necessárias para a preservação da saúde financeira e da capacidade de investimento das empresas do setor.


É aconselhável e prudente que o transportador e seus contratantes negociem o repasse da inflação do período e das defasagens anteriores, a fim de manter o equilíbrio de seus contratos e a manutenção da qualidade e a garantia dos serviços de transporte de forma sustentável.


Eng. Antonio Lauro Valdivia Neto* e Economista Fernando Sebastião da Silva**

*Especialista em transportes; Engenheiro de Transportes, pós-graduado e Mestre em Administração de Empresas. Assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas – NTC.

** Economista e Assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas – NTC.